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domingo, 29 de novembro de 2009




Amor sem nexo.
Ricardo Gondim


Amar é ônus.
Quem ama sofre;
todo amor derrama lágrima. 


Amar é tensão.
Quem ama conhece limite;
todo amor exige renúncia.


Amar é desordem.
Quem ama dá liberdade;
 todo amor permite opção.


Amar é ruptura.
Quem ama rompe;
todo amor afasta afeto concorrente.


Amar é convivência.
Quem ama pede companhia;
todo amor busca calor de pele.


Amar é reverência.
Quem ama admira;
todo amor enaltece apaixonadamente.




Desejos.
Ricardo Gondim


Desejo conquistar a mim mesmo para
não sonhar os sonhos
do enlouquecido

Desejo aceitar as feridas de quem ama para
quebrar o feitiço
do adulador.

Desejo a quietude do sábio para
desprezar a festa
do farsesco.

Desejo sentar com o humilde para
desdenhar a sedução
do rei.

Desejo ser filho amado de Deus para
não tentar ser dono
do sobrenatural.

Desejo viver contente para
não me enamorar
da riqueza.

Desejo vestir-me de bondade para
nunca valer-me
da vigança.

Desejo a sombra dos simples para
não me conduzir pelo sol
do soberbo.

Desejo esquecer sonhos infantis para
viver com a grandeza
da criança.

A vida é bonita e
os anos tão ariscos.

Tenho tantos desejos e
tão pouco tempo para
cumpri-los.

Como nunca deixarei de almejar,
quero só desejar certo.

Soli Deo Gloria.

sábado, 28 de novembro de 2009

Quem diz eu te amo







Quem diz eu te amo
Ricardo Gondim






Quem diz eu te amo





se assemelha à criança que chama pela mãe. 



Quem diz eu te amo, se compromete seriamente. 


Quem diz eu te amo, se dá sem pedir. 
Quem diz eu te amo, se responsabiliza com as esperanças que fez nascer. Quem diz eu te amo, se parece com Deus, o eterno amante. 



Quem diz eu te amo
se conscientiza que se vulnerabilizou à dor. 
Quem diz eu te amo
se despede de poder dizer adeus. 


Eu te amo.


Eventos evangélicos que dão apoplexia


Ricardo Gondim



Menino prodígio pregando, fantasiado de pastor. (Tenho vontade de esganar os pais, os líderes que deixam esse tipo de excrescência e a multidão imbecilizada que ainda consegue dar glória a Deus).
Marcha para Jesus em São Paulo. (Sei que esse “carnaval-gospel-fora-de-hora” acontece em outras cidades, mas nenhum consegue ser tão ruim).
Pastor entrevistando demônio. (Além de considerar desprezível o que um demônio tenha para dizer, acho esse tipo de coisa uma violência contra a dignidade humana).
 Evangelista empetecado prometendo prosperidade. (Tais mercadejadores da esperança povoarão a esfera mais baixa do mundo subterrâneo de Dante).
 Profecia em programa de rádio. (O pastor chuta afirmando que algum motorista está triste e que Deus mandou aquele recado; pateticamente acerta todas).
 Conferência missionária que atrela a miséria da Africa à idolatria. 
(As veias do meu pescoço incham quando ouço alguém dizer que os Estados Unidos ficaram ricos porque são “uma nação cristã”).
 Testemunho de cura divina em cruzada evangelística (Que tristeza ouvir velhinha contar que foi curada de caroço, dor nas pernas e da coluna! Os que têm o dom de cura devem dar plantão na Ala dos Indigentes do Hospital do Câncer ou em ClInica de Hemodiálise).
 Sermão entrecortado com língua estranha (Será que as platéias não percebem o exibicionismo?).
 Político se convertendo em ano eleitoral (Que mico; nojo se mistura com vergonha!)

(Tem muito mais... Aceito sugestões)

O Tempo que foge




O Tempo que foge

Por: Ricardo Gondim


Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos. Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo. Não vou mais a workshops onde se ensina como converter milhões usando uma fórmula de poucos pontos. Não quero que me convidem para eventos de um fim-de-semana com a proposta de abalar o milênio.

Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos parlamentares e regimentos internos. Não gosto de assembléias ordinárias em que as organizações procuram se proteger e perpetuar através de infindáveis detalhes organizacionais.

Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos. Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões de “confrontação”, onde “tiramos fatos à limpo”. Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário do coral.

Já não tenho tempo para debater vírgulas, detalhes gramaticais sutis, ou sobre as diferentes traduções da Bíblia. Não quero ficar explicando porque gosto da Nova Versão Internacional das Escrituras, só porque há um grupo que a considera herética. Minha resposta será curta e delicada: - Gosto, e ponto final! Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: “As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos”. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos.

Já não tenho tempo para ficar dando explicação aos medianos se estou ou não perdendo a fé, porque admiro a poesia do Chico Buarque e do Vinicius de Moraes; a voz da Maria Bethânia; os livros de Machado de Assis, Thomas Mann, Ernest Hemingway e José Lins do Rego.

Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita para a “última hora”; não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja andar humildemente com Deus. Caminhar perto dessas pessoas nunca será perda de tempo.

Soli Deo Gloria

Definitivo - Drummond de Andrade











Definitivo
Definitivo, como tudo o que é simples. 
Nossa dor não advém das coisas vividas, mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram. 


Sofremos por quê? Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter tido junto e não tivemos, por todos os shows e livros e silêncios que gostaríamos de ter compartilhado,  e não compartilhamos. 
Por todos os beijos cancelados, pela eternidade. 


Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um amigo, para nadar, para namorar. 


Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco, mas por todos os momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas angústias se ela estivesse interessada em nos compreender. 


Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada. 


Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam, todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar. 


Por que sofremos tanto por amor? 
O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez  companhia por um tempo razoável, um tempo feliz. 


Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um verso: 


Se iludindo menos e vivendo mais!!! 
A cada dia que vivo, mais me convenço de que o 
desperdício da vida está no amor que não damos, nas 
forças  que não  usamos, na prudência egoísta que 
nada arrisca, e que,  esquivando-se  do sofrimento,
perdemos também a felicidade. 


A dor é inevitável. 
O sofrimento é opcional...


Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Amor antigo - Drummond de Andrade







O amor antigo





O amor antigo vive de si mesmo,


Não de cultivo alheio ou de presença.


Nada exige nem pede. Nada espera,


Mas do destino vão nega a sentença.


O amor antigo tem raízes fundas,


Feitas de sofrimento e beleza.


Por aquelas mergulha no infinito,


E por estas suplanta a natureza.


Se em toda a parte o tempo desmorona


Aquilo que foi grande e deslumbrante,


O antigo amor, porém, nunca fenece


E a cada dia surge mais amante.


Mais ardente, mas pobre de esperança.


Mais triste? Não. Ele venceu a dor,


E resplandece no seu canto obscuro,


Tanto mais velho quanto mais amor.





Carlos Drummond de Andrade

Eterno, é... - Drummond de Andrade










Eterno, é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade, que se petrifica, e nenhuma força jamais o resgata!



Fácil é ouvir a música que toca. Difícil é ouvir a sua consciência acenando o tempo todo, mostrando nossas escolhas erradas.


Fácil é ditar regras. Difícil é seguí-las. Ter a noção exata de nossas próprias vidas, ao invés de ter noção das vidas dos outros.


Fácil é perguntar o que deseja saber. Difícil é estar preparado para escutar esta resposta. Ou querer entender a resposta.


Fácil é chorar ou sorrir quando der vontade. Difícil é sorrir com vontade de chorar ou chorar de rir, de alegria.


Fácil é dar um beijo. Difícil é entregar a alma. Sinceramente, por inteiro.


Fácil é sair com várias pessoas ao longo da vida. Difícil é entender que pouquíssimas delas vão te aceitar como você é e te fazer feliz por inteiro.


Fácil é ocupar um lugar na caderneta telefônica. Difícil é ocupar o coração de alguém. Saber que se é realmente amado.


Fácil é sonhar todas as noites. Difícil é lutar por um sonho.


Fácil é mentir aos quatro ventos o que tentamos camuflar. Difícil é mentir para o nosso coração.


Fácil é ver o que queremos enxergar. Difícil é saber que nos iludimos com o que achávamos ter visto. Admitir que nos deixamos levar, mais uma vez, isso é difícil.


Fácil é dizer "oi" ou “como vai”? Difícil é dizer "adeus". Principalmente quando somos culpados pela partida de alguém de nossas vidas...


Fácil é abraçar, apertar as mãos, beijar de olhos fechados. Difícil é sentir a energia que é transmitida. Aquela que toma conta do corpo como uma corrente elétrica quando tocamos a pessoa certa.


Fácil é querer ser amado. Difícil é amar completamente só. Amar de verdade, sem ter medo de viver, sem ter medo do depois.


Amar e se entregar. E aprender a dar valor somente a quem te ama.


Falar é completamente fácil, quando se tem palavras em mente que expressem sua opinião. Difícil é expressar por gestos e atitudes o que realmente queremos dizer, o quanto queremos dizer, antes que a pessoa se vá...


Fácil é julgar pessoas que estão sendo expostas pelas circunstâncias. Difícil é encontrar e refletir sobre os seus erros, ou tentar fazer diferente algo que já fez muito errado.


Fácil é ser colega, fazer companhia a alguém, dizer o que ele deseja ouvir. Difícil é ser amigo para todas as horas e dizer sempre a verdade quando for preciso. E com confiança no que diz.


Fácil é analisar a situação alheia e poder aconselhar sobre esta situação. Difícil é vivenciar esta situação e saber o que fazer. Ou ter coragem pra fazer.


Fácil é demonstrar raiva e impaciência quando algo o deixa irritado. Difícil é expressar o seu amor a alguém que realmente te conhece, te respeita e te entende. E é assim que perdemos pessoas especiais.


Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Cora Coralina





Não sei... se a vida é curta ou longa demais prá nós, mas sei que nada do que vivemos tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.


Muitas vezes basta ser : Colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta, silêncio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que acaricia, desejo que sacia, amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo, é o que dá sentido à vida. É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais, mas que seja intensa, verdadeira, pura... enquanto durar.

Cora Coralina

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Semeador












Semeador


Antes que raie o dia
Já se pôs no caminho
Sem se preocupar
Apenas caminhando
E sua semente
Semear.


Semeando palavras ao vento
Não sabe onde a semente cai
Apenas caminha
Semeando paz
Através do amor
Que vem do Pai.


Rápido o dia se despede
E junto o que semeia
Muitas sementes lançadas
Algumas na areia
Outras no sertão
Apenas as de boa terra
Germinarão.


Mas quem sabe,
Nem mesmo o semeador
Se põe a perguntar
O que mais deseja
É sair novamente
Semeando no caminhar.


Vai semeador
Semeando palavras
Que brotam de Deus
Criam raízes na terra
Raízes de vida
Bem aventurando os homens
Frutificando a paz
Caminhar e semear.



(Thiago Azevedo)






sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Canção Quase Inquieta


Canção Quase Inquieta




De um Lado, a eterna estrela

e do outro a vaga incerta,
meu pé dançando pela

extremidade da espuma,

e meu cabelo por uma

planície de luz deserta.
Sempre assim:

de um lado, estandartes do vento …

- do outro, sepulcros fechados.

E eu me partindo, dentro de mim,

para estar ao mesmo momento

de ambos os lados.
Se existe a tua Figura,

se és o Sentido do Mundo,

deixo-me, fujo por ti,

nunca mais quero ser minha!
(Mas, neste espelho, no fundo

desta fria luz marinha

como dois baços peixes,

nadam meus olhos à minha procura …

Ando contigo — e sozinha.

Vivo longe — e acham-me aqui…)
Fazedor da minha vida,

não me deixes!

Entende a minha canção!

Tem pena do meu murmúrio,

reúne-me em tua mão!
Que eu sou gota de mercúrio

dividida,

desmanchado pelo chão …
(Cecília Meireles, Flor de Poemas)




Lucilene disse: Que lindo! Na verdade Cecília Meireles escreveu bem mais que um poema e canção, uma linda oração.





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