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quarta-feira, 10 de março de 2010

Viver não é suficiente

Quem deseja viver de verdade precisa, sem medo de errar, de gravidade; daquela gravidade que enraiza, cria limo e esmerilha pontas afiadas. Não basta destacar folhinhas do calendário, copular, batizar netos e reclamar do temporal. Há de descer dos devaneios para botar os pés no chão escarpado do dia-a-dia. Ilusões sabotam a vitalidade de existir.

Quem deseja viver de verdade precisa rodear-se de várias opiniões – "Na multidão dos conselheiros se encontra a sabedoria". Cofres guardam diamantes, mas não servem para gente - além de afixiar, não deixam entrar réstias da vida. O contrapé gerado pelos duvidosos ajuda a distender os limites das convicções. A discordância dos inquiridores faz repensar velhas ideias.

Quem deseja viver de verdade precisa portar-se com elegância, e diligentemente. A polidez tem que ser nutrida - ela não nasce por acaso. Uma vez a candura hospedada no espírito, torna-se mister vigiá-la. Toda a conversa deve ser mansa, todo o encontro, prudente, e toda a despedida, lastimosa.

Quem deseja viver de verdade precisa arrepender-se com frequência; ousar tanto, que os cadarços, moídos e frouxos, careçam sempre de novos laços. Que ninguém, ao prescrutar minunciosamente a alma, se assombre. Luzes e trevas pedem para que não se evitem auditagens honestas. Não é preciso temer rejeição. A Divindade não se chateia com inadequações. Criados incompletos, carecemos do espaço pedagógico de errar.

Quem deseja viver de verdade precisa aliar virtude à coragem. Os maus são atrevidos. Os sem-caráter também ousam. Denodo só vale quando vem ladeado com siso. Encarar de peito aberto o perigo, só quando se considerar o próximo como um delicado cristal; e os instantes, como eternidade.

Quem deseja viver de verdade precisa saber chorar os mortos, e nunca envergonhar-se de suas dores viscerais. Não há como escapar do sorvedouro que devora as pessoas queridas. Mas na angústia da morte, aprende-se, como disse Kierkegaard, “o que há de mais elevado”. Viver é calar os eufemismos para essa solidão devastadora que entristece orfãos, viúvas, pais desfilhados e amigos amputados de amigos.

Quem deseja viver de verdade precisa aprender a inspirar os crepúsculos, a enamorar-se das noites, a morgar em feriados chuvosos, a dourar farofa para uma comidinha dominical, a recitar poesia e rumorejar os sentimentos do poeta.

Quem deseja viver de verdade precisa contentar-se em nunca resolver os enigmas do porvir, a rota dos labirintos, o caminho da serpente sobre a pedra, e o curso das andorinhas que anuciam o verão. Viver é dar de ombros para as respostas imprecisas e para as explicações semiplenas. Quem vive navega em rotas inéditas e portos inalcançaveis; sabe que o destino é insólito.

Soli Deo Gloria
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